A multidão que me cercava me impossibilitava de encontrá-la, mas eu não desistiria. Não assim. Não aquela noite. A minha volta, pessoas de todos os estilos e cores caminhavam depressa e se esbarravam, mas para mim era uma seqüência de movimentos em câmera lenta, rápidos o bastante para que meus olhos não os captassem. Um ar quente dominava a estação de metrô e um farfalhar incomum a dominava mutuamente. Nunca imaginei como seria uma estação de metrô há exatos um minuto para a meia-noite. Nunca me imaginei em um há essa hora. Mas lá estava eu: um coração partido buscando consolo onde pudesse se aconchegar e refletir por todo o inverno... Por toda a vida. E de repente o farfalhar desapareceu, ou talvez tenha sido fruto da minha imaginação, ou só do meu coração acelerado, mas eu simplesmente estava ali, e agora eu a conseguia ver: os fios de cabelo voando para trás de si, os olhos verdes se movendo lentamente em minha direção e o par de lábios rosados mais lindos do mundo se esticando para sorrir. Nós nos olhamos. E então eu corri até lá, como num daqueles filmes dramáticos e entorpecentes, que no geral eu via quando estava deprimido, ou só quando queria imaginar como seria nosso primeiro encontro depois de tudo o que havíamos passado quando ainda estávamos distantes. E lá, a sua frente, ao tocar de sinos que indicava a meia-noite, estava eu, segurando em suas mãos frias e impedindo de uma vez por todas que nossas palavras estragassem tudo outra vez. Então eu simplesmente a beijei, a meia-noite.
* Three Whishes, de The Pierces
Por Alexandre Tavares.